II Seminário Estadual debaterá reestruturação da carreira e processos de trabalho no INSS
O Sinsprev/SP realizará , em 27 de abril de 2019, o II Seminário Estadual Reestruturação da Carreira e as Transformações nos Processos de Trabalho no INSS. O Seminário será das 9h00 às 17h00, no Auditório do Sintrajud: Rua Antônio de Godoi, nº 88 - 15º andar - Centro - São Paulo.
Contribuição do VAMOS!
“QUEM NÃO SE MOVIMENTA
NÃO SENTE A CORRENTE QUE OS PRENDEM”
Rosa Luxemburgo
Introdução
Desde o ultimo seminário muito mudou
no quadro político brasileiro. Com isso precisamos contextualizar essas
mudanças e o que elas afetam diretamente a nossa carreira e os nossos processos
de trabalho. Entendemos que, na atual conjuntura, onde temos o governo Bolsonaro, que
defende o estado mínimo e o fim da Previdência como a conhecemos, com esse
projeto de Reforma, e principalmente com o sistema de capitalização, a
dificuldade da implantação de uma carreira justa, onde possamos ter valorização
e reajustes garantido, fica ainda mais distante.
A luta por carreira e por alterações
nos processos de trabalho que sejam para beneficiar os servidores e população
em geral, passa hoje, necessariamente, pela luta contra esse projeto absurdo da
PEC 06/2019. A desconstitucionalização da Previdência coloca ainda mais perigo
sobre o futuro do INSS, pois a legislação pode ser mudada a qualquer momento através
de PLs e Decretos.
O sistema de
capitalização em si, significa o fim do INSS e da Previdência Pública. Uma vez
que os trabalhadores estiverem submetidos aos fundos de pensão, ao INSS só
caberá um papel residual de transição, com os servidores numa carreira em
extinção sendo redistribuídos para outros órgãos.
Os ataques sistemáticos as
organizações sindicais, como a MP873 e decreto posterior, vem para enfraquecer
as entidades na luta contra a reforma da Previdência, portanto estamos vivendo momentos
de intenso ataque, sejam por medidas externas como também por mudanças internas
no instituto, com fechamento de agencias e mais abandono das estruturas físicas
das mesmas.
INSS
Digital e os processos de trabalho
Depois de passado boa parte da
implantação desse projeto, temos mais a certeza de que não passa pela melhoria dos processos de
trabalho e atendimento, e sim mostra mais ainda a enorme fragilidade do INSS em
cumprir o seu papel primário, que é o reconhecimento de direitos. Hoje não se
sabe ao certo a quantidade de benefícios represados, de 2 milhões de
requerimentos iniciais, 3 milhões de processos de MOB e mais uma quantidade
desconhecida de processos de revisãoVoltamos a décadas passadas, onde não damos
mais informações aos segurados de quanto tempo irá demorar a resposta do seu
protocolo, e muito menos um atendimento mínimo sobre a análise do seu benefício.
Consideremos que, conforme dados já
diversas vezes reiterados pelo DRH, teremos ao longo de 2019 em condições de se
aposentarem 33% do quadro de servidores. Todos os dias servidores se aposentam,
agravando mais ainda o quadro já tão precário. Com as inúmeras afirmações desse
governo de que não haverá concurso, nossa categoria segue mais ainda diminuída e
com mais pressão de trabalho.
O INSS se
dirige aos servidores como que lançando flores de “valorização” e
“flexibilidade”, aliadas à promessa de esvaziamento das agências e afastamento do
público segurado, e promessas de bônus, encontrando assim ressonância em muitos
colegas. Não percebem que estão caminhando para a perda da própria identidade.
Caminho este, que muitas outras categorias já trilharam, marchando, na verdade,
para o desemprego, para a terceirização e para a superexploração.
Pressupõe ainda que, com a realização
da reforma da previdência, o número de benefícios protocolados tende a
diminuir, sendo o problema central a resolução do problema atual de estoque. E
por fim que se dará um salto na automatização dos benefícios, tornando o
aumento do número de servidores desnecessário à longo prazo. Se nada disso
funcionar, o que impede a mudança de alguns marcos normativos e a terceirização
completa de nossas funções? O caminho já foi aberto com a reforma trabalhista e
a legalização da terceirização nas atividades finalísticas.
Reiteramos o que exemplifica Ricardo
Antunes (1995) a fragmentação, complexificação e
heterogeneização da classe trabalhadora; qualificação e desqualificação do
trabalho; desemprego estrutural; incremento do trabalho feminino e o trabalho
precário, temporário, parcial, subcontratado e terceirizado. O resultado destas
transformações é a constituição de uma classe trabalhadora cada vez mais
complexa e heterogênea. E nesse contexto também estamos inseridos, pois não
trabalhamos sozinhos, temos os terceirizados em trabalhos menos valorizados.
Desde a greve de 2015 na prática não
há avaliação do REAT. Ainda que isso tenha sido inicialmente uma conquista,
pois com a necessidade de reposição do trabalho acumulado seria impossível o
cumprimento das metas, tal fato foi aproveitado de outra forma pela
administração. Com a alegação de que com o INSS Digital deveriam ser
readequados os parâmetros de avaliação, o REAT foi sendo deixado de lado,
ficando agora claro que a intenção é substitui-lo pelo trabalho por metas. E
quem não aderir ao Teletrabalho ou ao PROBEN, fica a “opção” de trabalhar 8
horas, como está previsto ser nossa jornada na própria IN 98.
Outro problema frente a essa
lógica de trabalho é a tendência de cada vez maior precariedade no reconhecimento
de direitos ao trabalhador que nos procura. Essa é a nossa razão de ser, e está
cada vez mais distante de nossos horizontes. O INSS Digital já provocou uma
alienação quase total na análise de benefícios, a tornando um processo frio,
mais um número, levando o servidor a esquecer que é toda uma vida de trabalho
que está sendo analisada.
A busca pela maior
resolutividade dos processos possível, que deveria ser um direito do segurado,
foi na prática abandonada, tendo que o requerente aguardar nos serviços
agendáveis para sabe lá quando e com que qualidade ser analisado seu caso. E no
caso dos benefícios automáticos, serem feitos com todo tido de erro somente com
as informações de sistemas, sujeitos a retrabalho com revisões posteriores, ou
de recursos por indeferimentos sem análise documental adequada.
Ao colocar isso não se está
afirmando que deva-se voltar aos processos físicos. Para que se adotem
processos digitais não é necessário que o trabalhador seja atendido por um
estagiário precarizado, recebendo um salário de fome com o pior tipo de
terceirização possível, tornando todo o programa de estágio uma ficção. Nada
impede que seja atendido por um servidor que realize a pré-análise, indique a
documentação necessária para que se conclua o processo, oriente em caso de
ausência de direito imediato, conceda quando possível, ou envie o processo em
melhores condições para as APS Digitais quando não for possível finalizá-lo.
O problema é que um atendimento
digno e qualitativo do gênero demanda contratação de servidores, abertura de
agências, melhoria na infraestrutura e nos sistemas corporativos. Temos como
problema adicional que a superlotação das agências, as agendas distantes, a
falta de educação previdenciária e a retirada de direitos leva ao conflito
crescente entre o trabalhador que está de um lado do balcão e o outro.
Consequentemente se torna um desejo dos servidores e uma alegria o fim do
atendimento presencial, encarando como um inimigo a razão de ser de seu próprio
trabalho.
PROBEN e TELETRABALHO: NÃO EXISTE ALMOÇO
GRÁTIS
O projeto do PROBEN é de fato a
principal saída apresentada pela administração do INSS para fazer frente ao
absurdo acúmulo de processos, piorado após a implementação do INSS Digital e a
abertura forçada de agenda que o acompanhou. Prometem que com esse projeto em 2
anos o estoque estaria zerado.
A urgência em dar uma solução ao
problema só se agrava com a diminuição do quadro pelas aposentadorias. Tal
programa tem por base péssimas premissas, como a não realização de concursos
públicos para reposição do quadro, ou ainda o congelamento salarial e sua
consequente perda real do poder aquisitivo com a inflação, forçando os
servidores ao trabalho extra pra manter seu nível de vida. E, o que é mais
grave, a flexibilização da jornada de trabalho, que significa na prática o
aumento indiscriminado da carga horária de acordo com nossas necessidades
financeiras e com a variação das metas propostas a cada ciclo.
A tempestade perfeita provocada
pelas sucessivas políticas econômicas leva a que a adesão ao PROBEN seja uma
falsa opção, frente ao congelamento salarial em curso. Trata-se de um aumento
real de jornada, agravado pelo fato de ser um programa temporário, após o qual
certamente será cobrada a manutenção dos índices de produtividade para que se
possa manter o estoque de benefícios em equilíbrio sem a contratação de
servidores. Pressupõe também a terceirização dos demais serviços realizados em
APS, a qual se torna até mesmo um desejo de boa parte dos servidores, tendo em
vista o fato consumado da não realização de concursos e a sobrecarga de
trabalho gerada.
A intenção de se flexibilizar
nossa jornada é aberta e dita claramente nas entrevistas dos membros das
ultimas diretorias. Colocam que não faz mais sentido nos tempos atuais se falar
em jornada de trabalho, numa clara referência às tendências da chamada quarta
revolução industrial e ao processo de uberização do trabalho, primando pela
jornada por produção. Se propagandeia nesse sentido até mesmo a adoção de um
aplicativo para o registro e acompanhamento do trabalho, no melhor estilo da chamada
nova economia, acompanhado pela total falta de direitos trabalhistas.
À princípio nós servidores,
principalmente os da concessão, ficamos positivamente impactados, pois podemos
ter um rendimento adicional para fazer frente ao aumento do custo de vida.
Porém, quanto mais ficamos dependentes de tal medida para manter nosso padrão
de vida, maior a precarização do trabalho. Se metade de nossos rendimentos vier
de tal programa, que maravilha, dobramos nosso salário! Mas não percebemos que
nosso salário real está sendo reduzido há anos com o congelamento nos gastos
públicos, e com o tempo, mesmo com o PROBEN, estaremos ganhando menos e
trabalhando mais.
Infelizmente pouco se pensa nas
consequências desse bônus, sem ser realmente remuneração. É uma parcela do
salário sem décimo terceiro, sem retenção previdenciária, que não se mantém em
caso de licença médica, sobre a qual não há um terço de férias, não há nem
mesmo direito a férias, uma vez que você não a recebe se não estiver
trabalhando. O direito à greve é também diretamente atacado, uma vez que o
corte do salário é automático, quando não se está produzindo nada se ganha.
Adicionado ao Teletrabalho, o
que se tem é uma jornada de trabalho insana, podendo chegar à uma jornada de 10
horas, com uma quantidade indefinida a mais com o PROBEN. Vários colegas com
mais facilidade na análise de benefícios, seja por maior experiência,
habilidade com a tecnologia, ou seja pela infeliz cultura dos indeferimentos
indevidos, argumentam que o tempo real de análise é inferior ao estipulado como
base, sendo possível realizar 10 ou 12 processos em menos de 6 horas. Além
dessa claramente não ser a realidade da maioria dos servidores, trata-se de um
raciocínio ingênuo.
Os nossos tempos de trabalho são
amplamente monitorados pela administração, existe todo o instrumental
necessário para a realização deste levantamento, o qual já é feito e o será
durante a aplicação destes programas. Ainda que no início se consiga atingir as
metas estabelecidas em período inferior ao término do mês, caso esta seja a
regra geral isso será detectado e as
metas reajustadas nos ciclos seguintes. Basta que se faça um levantamento dos
tempos médios de término dos processos e de dias usados para o término das
metas, de forma a adequar a pontuação ao número real de horas de trabalho
previsto. Vemos atualmente a dificuldade dos servidores que estão nos polos de
atingirem os 90 pontos.
A alienação no trabalho não se
refere somente ao distanciamento daquele que atendemos, mas também a tendência
à falta de contato com os próprios colegas de trabalho. Isso não só no Teletrabalho,
onde toda a lógica do trabalho é individualizado, o ambiente de trabalho é o
próprio lar e se perde a visão do todo da organização. Tal distanciamento
também ocorre com o PROBEN, pois mesmo que o servidor não opte pelo
Teletrabalho, será impelido a um ritmo de trabalho que reduz drasticamente o
contato com os demais colegas ao lado. Com isso a organização enquanto
categoria também é afetada, a capacidade
de enfrentamento coletivo é assim substancialmente reduzida e limitada, a
possibilidade de greves e movimentos contestatórios reduzida. Ficam os servidores
muito mais sujeitos aos arbítrios da administração e suas readequações de
metas, de vencimentos, às avaliações de desempenho e mudanças legais.
Como fica a
questão da Carreira?
Entendemos
que a discussão passa por nos apropriarmos sempre das mudanças no nosso instituto,
sendo protagonistas nessa transição, não somos contra a novas tecnologias e
melhorias dos processos de trabalho e atendimento, mas somos nós principalmente
que temos acúmulo das necessidades do instituto, e a categoria precisa estar
unida nesse processo, sendo que o sindicato tem um papel fundamental nessa
organização.
Vemos
que a valorização do salário real com
manutenção dos direitos trabalhistas, contratação de servidores e ampliação do
número de agências, atendimento digno, humano e qualitativo objetivando a
garantia de direitos, tudo isso pode parecer apenas uma visão idealista, mas
deveria ser o mínimo num projeto de Previdência, que não seja seu mero
sucateamento e destruição. Tudo isso demanda recursos, demanda outra política
econômica e outra correlação de forças social, algo que nos parece hoje
distante.
O governo Jair Bolsonaro pretende encerrar o período de reajuste linear para os
servidores públicos e instituir o que o ministro Paulo Guedes chamou,
em reunião com sua equipe no Ministério da Economia, de meritocracia. Colocam que existirá avaliação
individual de desempenho, nos mesmos moldes de lojas de departamentos, onde as
pessoas apertam os botões coloridos avaliando o atendimento. Com mais essa medida
populista anunciada, coloca os servidores públicos como vilões, onde os
problemas de atendimento e andamento dos pedidos, caem mais uma vez nas nossas
costas.
Não
nos esqueçamos ainda do projeto de reestruturação de carreiras do serviço
público, apresentado pelo governo Temer e cuja implementação também já foi
prometida por Paulo Guedes. Quando o governo Bolsonaro fala em carreira, trata
de estabelecer um teto para a remuneração inicial dos servidores, aumentar os
interstícios para se chegar ao final da carreira, estabelecer critérios
produtivistas passíveis de assédio moral para que se evolua na carreira.
Resumindo, na contramão de tudo que reivindicamos.
Não
queremos aqui reduzir a importância do debate sobre carreira, mas sim
localizá-lo na conjuntura, sem o que se torna um debate estéril. A própria
regulamentação dos serviços passíveis de terceirização no serviço público
estabelece inicialmente aqueles que não são considerados área fim dentro da
carreira do órgão, este debate de fato existe e tem sua devida importância. O
problema que se coloca é que, com o ultraneoliberalismo que nos acomete,
somente pode obter ganho carreiras que sejam úteis a tal projeto social, caso
não se consiga reverter radicalmente a atual correlação de forças.
Não
à toa o exemplo mais próximo que temos de categoria que conseguiu ter sua
carreira inserida em medida provisória foi a dos médicos peritos. Isto porque
sua associação tem nos últimos anos cumprido o papel de colocar esta categoria
a serviço de uma verdadeira caça aos benefícios por incapacidade, corroborando
com a narrativa que criminaliza os segurados e os torna os principais
responsáveis pelos problemas da Previdência Social. Vale ainda lembrar que
mesmo tal carreira se tratou até agora tão somente de uma mudança de
nomenclatura dos cargos, e uma alteração de sua subordinação do INSS para a
Secretaria de Previdência, sendo duvidoso o quão benéfico tais mudanças são
para os médicos.
A
via de carreira aventada nos círculos da administração do instituto, uma
carreira enxuta cujos reajustes teriam menor impacto orçamentário, pressupõe a
ausência de concursos públicos e o avanço da terceirização. Isso porque somente
seria possível ganhos efetivos para a carreira se esta economizar dinheiro para
o Estado (ou para o mercado numa linguagem mais sincera), com atividades
focadas em auditoria e fiscalização, tornando o INSS um grande MOB, pressupondo
a redução de atividades concessórias com a reforma da previdência, a
automatização crescente das concessões acompanhadas de todo tipo de
irregularidades, e a terceirização das atividades que não sejam úteis a tal
projeto de carreira.
Vale
ainda lembrar que, mesmo cedendo a narrativa de criminalização do trabalhador e
se aceitando se tornar na prática policiais previdenciários, mesmo isso não
garante qualquer ganho efetivo frente à devastação neoliberal em curso que,
como já dito, pode até mesmo acabar com o INSS à longo prazo. Mesmo as chamadas
carreiras tipicas de Estado não tem quaisquer novos reajustes previstos, mesmo
os já aprovados em lei o que se projeta é o adiamento indefinido.
Queremos
uma Previdência Social pública, universal, socialmente referenciada, com
ampliação do acesso ao trabalhador, expansão de suas agências, atendimento
humanizado e com uma ampliação do quadro de servidores valorizados e capazes de
dar um atendimento digno à população ou não? Ou cederemos à situação política
calamitosa e nos adaptaremos aos projetos neoliberais de criminalização do
trabalhador, em troca de uma valorização de todo incerta?
Mas ainda que o momento seja
difícil, que sejamos impelidos pelas circunstâncias a aderir a programas de bonus,
não devemos perder do horizonte a perspectiva de melhora da carreira e salários,
e nem deixar de brigar por isso. As conjunturas mudam, e depende de nós e da
nossa organização coletiva, não só enquanto categoria, mas também enquanto
classe trabalhadora, a mudança desse cenário. Não podemos ficar eternamente
reféns de falsas escolhas que nos são impostas.
Não temos mais uma vez, a fórmula de
uma solução mágica para a nossa carreira, mas entendemos que a unidade, o
conhecimento, e principalmente a luta, é que serão capazes de intervir de verdade
nesse processo. Precisamos nesse momento, nos inserirmos na luta contra a
Reforma da Previdência, essa é a tarefa principal nesse próximo período. Está
sendo lançado pela Frente Povo sem Medo,
que reúne 35 movimentos sociais, uma contra proposta de reforma, uma que
realmente enfrente privilégios e que acabe com as desonerações fiscais. Temos
que nos somar nessa luta, enquanto categoria organizada em conjunto com as
nossas entidades, cobrando dos políticos, mas principalmente dialogando com a
população. Defender a Previdência pública e constitucional, é o básico para a
nossa sobrevivência enquanto categoria.
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